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Resumo recusado pela diretoria da ANPOF para participção no XIV Encontro Nacional de Filosofia


A relação entre justiça e vingança no enredo trágico pré-moderno e moderno: uma contribuição à teoria moral de Jürgen Habermas.



O trabalho pretende extrair duas diferentes concepções de justiça a partir das particularidades entre contextos éticos distintos, pré-moderno e moderno. A respeito disso, Habermas explica que: no mundo pré-moderno é possível interligar as diferentes ordens sociais a partir de um ethos comum, que permite a padronização de valores e instituições as quais recobrem os motivos e orientações da ação, por um lado, e interligam as normas políticas e de conduta, por outro; já no mundo moderno, pela racionalização do mundo da vida, ocorre o aumento do uso da racionalidade prática e cresce a reflexão a respeito da própria ordem e orientação ética tradicional, gerando as idéias distintas de auto-realização e autodeterminação as quais correspondem à diferenciação de questões éticas e questões morais. Para exemplificar as diferentes concepções de justiça, tratar-se-á do sentido de vingança nas tragédias Orestéia, de Ésquilo, e Hamlet, de Shakespeare. Em ambas o assassinato demanda um dever de vingança, porém a Orestéia narra o sentido de justiça a partir do conflito entre destino e salvação em um embate de ordens e leis divinas distintas, enquanto Hamlet reflete a busca do sentido de justiça a partir do conflito entre destino e livre arbítrio, em meio aos questionamentos da ordem estabelecida pelo costume e da tradição. Para tanto, introduz um debate sobre a possibilidade de se atribuir à narrativa literária características próprias do período histórico de sua formulação; em seguida, passa à diferenciação teórica da ética e da moral nos períodos pré-moderno e moderno a partir da teoria moral de Habermas, correlacionada com a caracterização dos conflitos de justiça e vingança no breve relato dos enredos da Orestéia e de Hamlet. Dessa forma, o presente trabalho pretende concluir que a relação entre justiça e vingança no período pré-moderno (na Atenas do século V a.C.) advém da necessidade de coerência com uma ordem cósmica que permite o ethos abrangente compartilhado; e no período moderno (na Inglaterra elisabetana) aparece na contraposição de deveres éticos e deveres morais.

Comentários

  1. Você merecia ter entrado. A restrição contra alunos da graduação é, sem dúvida, justificada, mas muito pouco feliz. Eu a parabenizo pelo belo resumo que ofereceu. E quero algum dia ver escrito o artigo que nele se havia prometido.

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  2. Muitíssimo obrigada, professor.
    Eu fiquei triste com a não aceitação sumária, pois também achei que o resumo ficou bem legal (apesar de que pode ser melhorado).
    De qualquer forma, escreverei o artigo correspondente a este resumo, e um dia ele será submetido e aceito por alguém!
    Não ter o projeto aceito de primeira por motivos como este, eu compreendo, mas me faz querer e me esforçar por um trabalho que surpreenda a todos!
    Abraço!

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  3. Fernanda, agora que vi a postagem do seu resumo. Bom, tudo que posso dizer dos meus poucos anos de experiência acadêmica é que nem sempre os resumos são aceitos para os eventos. Mas, isto não deve ser tomado como algo depreciativo ao seu tema de pesquisa, em especial quando o critério de eliminação é formal (no caso, apenas relacionado ao nível acadêmico daqueles que podem apresentar resumos no evento). Além disso, o exercício da escrita parece-me fundamental em uma atividade, como a atividade acadêmica, que lida diretamente com ideias, termos e linguagem. Enfim, continue exercitando suas habilidades de explicitação e relação entre ideias que é muito provável que os trabalhos que você escreve se tornem cada vez melhores.

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  4. Olha só, te achei! Não tenho um comentário que valha a pena aqui, mas aqui é o Rafael "Khall" Fernandes, sabe? Te vi no Twitter, aí vim aqui. Sei lá, vai que funciona. ^^"
    Se quiseres, segue: @inefavelparadox

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  5. Ok, comentário válido ^^
    Já add no twitter.

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  6. Oi, minha gracinha. Fiquei muito curiosa sobre o seu trabalho a partir da leitura do seu resumo. Fiquei interessada principalmente no seu argumento sobre Hamlet, que é uma tragédia complexa e batante traiçoeira no que se refere à interpretações. Você poderia, por favor, postar de que forma você trabalha com a personagem do príncipe da Dinamarca em sua monografia. Pode ser apenas uma versão curtinha da sua argumentação, apenas para me dar o gostinho, rsrs. Beijos!

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  7. Aproveitar para responder direitinho os comentários.

    É verdade, Deb, escrever o meu resumo me ajudou bastante a formular uma linha geral de raciocínio para a minha própria monografia. Eu ganhei bastante com a produção dele, mesmo que tenha sido recusado. Agora meu desafio mais recente tem sido o projeto XD

    Linda, em todo o meu trabalho meu ponto mais fraco atualmente tem sido Hamlet. Isto porque venho estudando principalmente a Orestéia para 'começar do começo'. Uma tragédia extremamente complexa, tal como a de Shakespeare. E minha monografia tem o risco de, por falta de tempo, não poder chegar a abordar a modernidade em Hamlet.

    Mas em geral tentarei trabalhar Hamlet em oposição à Orestes, tanto com relação aos conflitos que lhes atingem quanto em suas atitudes perante o dever de vingança. E a partir dessa análise, principalmente embasada nos atos de dúvida de Hamlet e na forma como ele percebe seus deveres de lealdade e justiça, tentarei trazer a tona os traços do que seria um germe da modernidade. É claro, buscando enquadrar o próprio conflito nesta peça com a mentalidade de sua época.

    Então, eu ainda guardo apenas uma noção geral do que pretendo argumentar, e sobre a qual ainda preciso trabalhar bastante. Por isso as próximas postagens e meus estudos mais imediatos vão se concentrar ainda na Orestéia e na pré-modernidade. Mas espero poder chegar logo em Hamlet e descobrir, como você falou, o mundo que essa tragédia pode revelar.

    Beijos, meninas, e obrigada por comentarem!

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  8. Fernanda, imagino, então, que você vai embarcar numa interpretação de Hamlet ou pelo viés cético-relativista (Hamlet não crê existir o bem ou o mal, mas apenas o que ele acha e o que ele quer), ou pelo viés existencialista (Hamlet crê existir bem e mal, mas os vê como um fardo pesado e vazio de sentido, diante do vazio de sentido da própria existência), ou ainda pelo viés racionalista (Hamlet crê que vingar o pai é seu dever, mas apenas se Cláudio for mesmo culpado, motivo por que toma todas as providências para comprovar inequivocamente essa culpa antes de tomar qualquer atitude mais drástica). Há várias questões para serem debatidas, começando pela dúvida de Hamlet em relação à revelação do fantasma do Rei. Essa dúvida pode ser interpretada como dúvida cognitiva quanto à identidade do fantasma ou quanto à verdade de sua acusação, ou como dúvida ética quanto à justiça daquela vingança ou quanto às suas motivações para levá-la a cabo. Freud acresceu a isso a possível hesitação neurótica, produto do complexo de Édipo, de que Hamlet se identifica inconscientemente com Cláudio, pois este, tendo matado o pai de Hamlet e desposado sua mãe, cumpriu dessa forma o secreto desejo edipiano que Hamlet sempre nutriu e jamais confessara sequer para si. Lacan viu na hesitação de Hamlet o produto das lacunas de personalidade que seus desejos neuróticos lhe haviam produzido. Mas parece que você não vai embarcar nessas cogitações psicanalíticas. De qualquer modo, o tema do fingimento da loucura, da reencenação do pecado e da frustração do desejo por Ofélia precisarão estar intimamente conectados com qualquer interpretação que você arrisque para a personagem. Espero, sinceramente, que dê tempo de tratar de Hamlet no seu trabalho. Eu gostaria muito de ler suas considerações filosóficas sobre a peça, inclusive em suas postagens aqui nesse espaço. Beijinhos!

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