Por Melpôneme e Clio.
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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

(III / V) Bradley - Conferência I "A substância da tragédia shakespeariana"

BRADLEY, A. C. A Tragédia Shakesperiana. Trad. Alexandre Feitosa Rosas. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p. 3-27. Conferência I – A substância da tragédia shakespeariana.

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Sobre o herói trágico:

Características em comum no herói trágico shakespeariano:

São “homens de alta posição” ou de importância pública, cujos atos e sofrimentos são de natureza extraordinária. Possuem natureza excepcional, elevando-se acima da média humana. Isto não seria o mesmo que excentricidade ou modelo de perfeição, embora estas características possam existir de modo secundário no caráter da personagem principal. São feitos da mesma matéria que as pessoas normais, porém apresentam de forma intensificada qualquer desejo ou paixão, conferindo-lhes uma força excepcional.

Os heróis shakespearianos são marcados pela parcialidade, têm tendência a seguir determinada direção específica. Um traço trágico fundamental: identificam-se inteiramente com seu único interesse, que junto às outras características faz-se perceber o pleno poder da alma humana e do conflito nela.

Comparação do personagem trágico com os personagens de outros gêneros: percebe-se, por exemplo, que o personagem no drama comum não se atinge as mesmas elevações do personagem trágico (p. 14/15).

O erro do herói:

Juntamente com outros fatores, o erro do herói é a causa de sua ruína. Ocorre por ação ou omissão, causado pela própria grandeza da personagem. A imperfeição ou o erro fatal está sempre presente em Shakespeare. Na maioria dos casos o erro não se dá por uma violação consciente de virtude, e em outros especificamente pela completa convicção de virtude (por exemplo, Bruto e Otelo). Poder-se-ia apontar duas exceções: Ricardo e Macbeth, ambos fazem o que eles próprios entendem como baixo e vil, e é importante ressaltar que Shakespeare admite este tipo de herói[1].

No caso destes heróis ainda se pode perceber, porém, grandeza que renda admiração. Ricardo teria um poder que suscita assombro e uma coragem que causa admiração. Macbeth possui grandeza similar, acrescida de uma consciência aterradora e confrangedora em suas advertências e condenações que revelam de forma intensa o seu tormento interno. São capazes de despertar compaixão, ainda que despertem um desejo pela sua derrota (p. 16):

O herói trágico de Shakespeare, portanto, não tem de ser “bom”, apesar de em geral ser “bom” e, portanto, inspirar imediata compaixão quando em erro. Mas é necessário que demonstre tanta grandeza que em seu erro e queda possamos ter viva consciência das possibilidades da natureza humana.

O trágico de Shakespeare não se apresenta como deprimente. Nas tragédias não se percebe o homem como fraco, vil e pequeno. Pode-se perceber a grandeza do herói trágico, e por vezes presente em certa medida noutras personagens, permite o “cerne da impressão trágica”, que seria (p. 16):

Esse sentimento central é a sensação de desperdício. Em Shakespeare, sob qualquer ângulo que se olhe, a piedade e o terror suscitados pelo enredo trágico parecem ora se unir a uma profunda sensação de tristeza e mistério, ora fundir-se nessa sensação, que se deve ao sentimento de desperdício.

O sentimento de desperdício despertado pela tragédia permite perceber a grandeza humana, capaz de destruir a si mesma. O fenômeno trágico apresentaria então o mistério do próprio mundo humano, para além dos limites da tragédia. Na verdade, a tragédia seria a forma típica deste mistério ao apresentar a grandeza da alma oprimida do herói, em conflito e massacrada, pelos próprios atos humanos. É da existência humana que toda a sua grandeza, representada pelo herói, leve-a ao seu final trágico.

A tragédia, portanto, carrega o mistério da dicotomia da mais alta beleza do homem, à sua forma mais horrenda. E assim, faz perceber intensamente o valor daquilo que se está sendo desperdiçando.



[1] Importante também ressaltar, conforme nota do próprio autor, que esta não seria a mesma identificação do herói trágico trazida por Aristóteles e pela tradição dramática grega.

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